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SANGUE YANOMAMI: UM OLHAR SOBRE OS CONFLITOS ÉTICOS PÓS-PESQUISA EM ANTROPOLOGIA

 CHILDER NATANIEL PEREIRA SILVA*

VYCTOR GOMES DE NEGREIROS ARAUJO**

WANDERSON CARLOS LIMA DA SILVA***

 

 

RESUMO:O presente trabalho, realiza uma analise bibliográfica comparativa entre as praticas de pesquisa sociobiológicas, ilustradas pelo constructo teórico de Richard Dawkins e Walter Burkert, e os preceitos da antropologia cultural. Observando, por trás da polêmica entre Napoleon Chagnon e Marshall Sahlins, verifica-se  no conflito epistemológico as incongruências teóricas empreendidas por Changon em sua pesquisa com os povos yanomamis, visualizando o risco de um reducionismo biologizante, e suas consequências implicadas na ética pós-pesquisa.

 

PALAVRAS CHAVE: Sociobiologia; yanomami; ética na pesquisa.

 

 

Introdução

 

Não se trata de uma prática recente na história das ciências comportamentais, a tentativa de se explicar o comportamento animal e, sobretudo o humano, através da observação. No entanto muito desses estudos acabam por apenas descrever tais comportamentos sem especular as causas elementares acerca de porque e como homem se comporta diante de dadas situações.

 Teorias como a do arco reflexo - Sherrigton - e a dos reflexos condicionados de Pavlov, causaram grande excitação na primeira metade do século XX, em função exatamente de descrever ou mesmo prever a reação dos animais mediante determinados estímulos em circunstâncias variadas. Entretanto, como já foi exposto anteriormente, às ciências comportamentais e principalmente à antropologia cultural não interessa apenas descrever ações, mas antes de qualquer coisa explicá-las.

Os itinerários teóricos e epistemológicos que viabilizam a execução de tal empreendimento analítico acerca das especificidades das condutas humanas, variaram através do tempo. Em suma, distintas correntes do pensamento cientifico e filosófico, que desde o método aristotélico, privilegiam a realidade ou physis (natureza), em oposição à sofística, com sua verdade construída socialmente que pode facilmente ser ilustrada na frase de Protágoras "o homem é a medida de todas as coisas”. Inspiram hoje a disputa interdisciplinar entre natureza e cultura, sobre o convencimento do publico acadêmico e também da sociedade em geral, a partir de prerrogativas politico-ideológicas. O que consequentemente produz uma reorganização do poder no interior das sociedades. O constructo basilar que privilegia as representações sociais, símbolos e significados necessários ao entendimento de uma noção de edificação social ou verdade social, é constantemente provocado pela vertente neodarwiniana que tenta a qualquer custo reduzir a importância do conceito de cultura em detrimento de uma perigosa explicação sociobiologizante das sociedades. Assim os estudos culturais e behavioristas são respectivamente autênticos representantes destas duas correntes teóricas antagônicas.

Aqui chegamos ao cerne de toda discussão em torno do comportamento humano que é o que nos interessa de fato. Nosso empreendimento analítico se concentrará numa deliberação histórica e interdisciplinar entre antropologia cultural e sociobiologia, que volta a ganhar destaque no cenário acadêmico após a polêmica saída do antropólogo Marshall Sahlins – representante da antropologia cultural - da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos em virtude desta ter readmitido em seus quadros honoríficos o polêmico antropólogo Napoleon Chagnon – representante da antropologia evolucionista – acusado de comportar-se contrário à ética de pesquisa antropológica em seu trabalho com os Yanomami, grupo indígena situado nos confins da região norte do brasil. Com a publicação de seu recente livro, Nobles Savages, onde ele reaviva a polêmica em torno da ética antropológica ao vincular suas pesquisas às instituições militares norte americanas.

O fato é que Chagnon é vinculado a uma perspectiva antropológica de cunho evolucionário, que o aproxima definitivamente da sociobiologia. Para esclarecer um pouco mais o interlocutor acerca desta área do saber, convém defini-la. A sociobiologia é um ramo do conhecimento que tem por finalidade o estudo cientifico da base genética do comportamento de todas as formas de organismos vivos, incluindo o homem. Em linhas gerais é como dizer que o comportamento humano - que é o nosso objeto de discussão - é determinado geneticamente, em oposição a uma leitura cultural. Para isso a sociobiologia utiliza a teoria de seleção natural de Darwin em conjunto com a genética mendeliana e a paleontologia para dar fundamentação teórica a sua proposição. A seleção natural não é considerada propriamente a evolução em si, mas apenas o mecanismo que a promove ou sua força motriz de acordo com o Darwinismo. Tal seleção decorre da maior propensão que determinados indivíduos tem de sobreviver e se reproduzir face às condições ambientais:

 

"Mínimas alterações nos genes (mutações) acarretam alterações em determinadas características. Se favoráveis em face do meio, essas alterações tendem a predominar nas populações, por que aumentam a aptidão do individuo e sua capacidade de reproduzir-se”. (REIS, 1982, p.3)

 

Por conseguinte, sociobiologistas e geneticistas consideram que através do referido mecanismo de evolução é possível explicar não só o comportamento animal como o comportamento humano por este também ser considerado um animal. Ou seja, desconsiderando a cultura como parte primeira deste processo, comete-se um tremendo equivoco, pois, como animal, o homem é o único capaz de produzir cultura o que por si só já desmantela o argumento genético.

Este artigo intenciona, a partir de uma análise bibliográfica comparativa, estabelecer uma relação entre as práticas sociogenéticas utilizadas por Chagnon entre os yanomami e os preceitos da antropologia cultural, elencando incongruências ético-profissionais do pesquisador e as consequências de sua desmedida.

 

Sociobiologia e Cultura: os riscos do reducionismo biologizante 

 

 Ao longo de seu desenvolvimento, o homem teve ajuda preponderante da cultura para a sua estruturação biológica como postula Geertz no artigo O Crescimento da Cultura e a Evolução da Mente, no qual demonstra como a cultura foi imprescindível para o crescimento do cérebro até seu estagio final. Geertz enfatiza que alguns hominídeos, mesmo sem uma linguagem sistematizada podiam, através da criação de novas ferramentas e utensílios que facilitavam sua sobrevivência, desenvolver a cultura de forma intrínseca ao seu grupo. O uso desses utensílios primitivos permitiam ao cérebro, ainda pouco utilizado, um aprimoramento na medida em que dele exigiam funções que só apareceram com o surgimento dessas práticas criadas culturalmente, ou seja, exteriores à natureza. Dessa forma, Geertz possibilita-nos ver como o conceito de "instinto de sobrevivência” utilizado pelos autores filiados à sociobiologia, Walter Burkert e Richard Dawkins, em suas teorias não são válidos para determinar, por exemplo, o comportamento religioso. Os instintos como o medo e a agressão utilizados pelos autores são construções de relações culturais, dessa forma, o medo de um deus, de seres espirituais ou de qualquer fato "sobrenatural” que dão ao homem esse caráter religioso que Burkert chama de homo religiosus, são relativos a cada cultura. Da mesma forma Durkheim, na obra Formas Elementares da Vida Religiosa, afirma que as religiões foram as primeiras formas de representação coletivas, cada grupo de indivíduo modelando suas crenças a partir de suas relações sociais.

 Como o mundo era um enigma para todos os seus habitantes, era através da analogia de vários acontecimentos com aspectos não naturais a forma mais eficaz de compreender o mundo. Assim observa-se que o medo e a agressão, considerados instintos biologicamente determinados pelos sociobiólogos, para aqueles que postulam a primazia da cultura são construções culturais. Como exemplo temos a tribo trobriandesa estudada por Bronislaw Malinowski, na qual a relação com os espíritos dos mortos é recíproca, não existindo o medo de seus ancestrais.

O instinto de agressão, como geneticamente determinado, também pode ser refutado, já que as agressões podem variar muito dependendo da forma simbólica que assumem. Assim sendo, a teoria de Burkert, de que os instintos definem os princípios religiosos fica comprometida. Como Geertz demonstra, a cultura surgiu antes de uma linguagem estruturada, de forma que a teoria de Burkert sobre a transmissão dos rituais através da imitações pelos povos primitivos, pela qual "o ritual religioso estaria referido a um estado de comunicação anterior à linguagem, aprendido por imitação” (BURKERT apud ISAIA, 2010, p. 29), apresenta uma contradição. Fica nítido nessas imitações que existia, mesmo que precariamente, uma linguagem corporal que para fazer sentindo aos indivíduos teria que estar referida a uma estrutura cultural.

Dawkins parte do mesmo princípio do instinto de sobrevivência como determinante do individuo religioso, e o vincula a uma relação dualista entre proteção e obediência, e à teleologia para definir a essência deste homo religiosus em um contexto estritamente biológico. Argumenta Dawkins que, partir da relação de proteção dos adultos para com as crianças a obediência já é automaticamente transmitida a esses pequenos indivíduos por uma espécie de vírus mental (memes) resultando essa transmissão do que o autor define como unidade básica de informação o comportamento da criança. Nessa perspectiva o autor argumenta contra sua própria teoria, pois é a partir dessa relação entre adultos e crianças que as relações culturais são transmitidas, e é a partir desses contextos culturais que a obediência é moldada conforme com os costumes e não a partir de uma fórmula biologicamente estabelecida e imutável. Como, por exemplo, entre os guaiqui estudados por Pierre Clastres, entre os quais as crianças são ensinadas através da diferenciação entre os gêneros masculino e feminino, pois o que da sustentação a estrutura social está baseado na posse do arco e do cesto, ou seja, os meninos são ensinados a manusear o arco e a caçar alimentos, enquanto as meninas são ensinadas a manusear os cestos, ajudar nas colheitas e no preparo das comidas. Isso nos mostra que a obediência é construída socialmente e serve para a transmissão da identidade cultural, e não é um instinto já fincado nos cabedais das crianças. Com relação à teleologia, o autor diz que há uma predisposição transmitida geneticamente, porque as crianças naturalmente buscariam a finalidade das coisas, mesmo as "inanimadas”, incapazes de exprimirem intenção.

Partindo do pensamento antropológico podemos observar o quanto é falha essa explicação, pois a dualidade ocorre pelas várias possibilidades de significação que cada cultura lhe proporciona, devido à vasta quantidade de relações e analogias que o individuo pode elaborar dentro da perspectiva cultural em que está inserido, pois sempre o signo que denomina alguma coisa tem um significado maior do que a coisa em si. Com as crianças não é diferente, como ela esta no período de desenvolvimento da sua estrutura simbólica e seu cabedal cultural ainda está com pouco conteúdo, as analogias são feitas com maior frequência. Se a criança vê um objeto nunca visto antes, imediatamente ela seleciona características a comparar com outro objeto de seu conhecimento que de alguma forma tem características parecidas, ou faz analogias super-abstratas de acordo com sua estrutura de pensamento.

Conclui-se que a ressignificação de aspectos culturais em conceitos biológicos pode afetar o entendimento de fatores produzidos culturalmente, conduzindo o pesquisador a um reducionismo biológico e um equívoco metodológico que pode, inclusive, interferir negativamente na cultura estudada.

 

Chagnon e a ética em pesquisa social: o sangue yanomami

 

Das produções acadêmicas sobre os yanomamis, destacou-se em 2001 com a publicação do livro Trevas em Eldorado: como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia e violentaram a cultura yanomami, do escritor Patrick Tierney, os trabalhos do antropólogo norte-americano Napoleão Chagnon relativos às suas incursões às sociedades Yanomami na década de 1960 por seu teor polêmico. A partir de seu primeiro livro, Yaonomami: O Povo Feroz (Yanomamö: The Fierce People), em 68, Chagnon defende que entre os Yanomami existe uma propensão genética à agressividade, o que levaria, dentre outras coisas, os guerreiros da tribo a matarem seus rivais para roubar suas mulheres. O livro de Tierney permitiu a comprovação de que a pesquisa de Chagnon era

 

financiada pela Fundação de Energia Atômica dos Estados Unidos e tinha por objetivos: coletar  o  sangue  de 12.000  yanomamis  para  futuras  pesquisas genéticas; testar novo protocolo de vacina contra  o  sarampo;  incluir  os  yanomamis  como grupo de controle para pesquisa sobre sequelas de exposição radioativa com populações japonesas após a II Guerra Mundial (DINIZ, 2007, p.287)

 

Dos problemas que resultam das práticas de pesquisa realizadas pelo antropólogo, este artigo incide sobre as consequências da coleta do sangue dentro de uma perspectiva local, a partir de uma análise da cerimônia em homenagem aos mortos.

Um preceito basilar do ritual funerário yanomami é a necessidade de extinção dos vestígios de toda a corporalidade do morto, devido ao fato deste transformar-se em um inimigo da aldeia. Dessa forma, o cadáver deve ser queimado bem como devem ser apagadas todas as marcas e impressões por ele deixadas, caso contrário o morto será sempre atraído por seus vestígios, e, para estes, os mortos tem um potencial de agressividade.

 

"Para que o processo de transformação do õxi em morto, ou para que o morto se torne inimigo, seja definitivo, seus parentes devem queimar o cadáver, destruir até mesmo as marcas, as impressões que, em vida, ele deixou em objetos, em construções, em plantações. Toda a sua corporalidade anterior deve ser extinguida no ritual funerário, quando o corpo é cremado, os ossos são pulverizados e as cinzas são consumidas. Caso contrário, ele sempre será atraído por essas porções do seu corpo de Sanumá que guardam sua memória”. (GUIMARÃES, 2010, p.272)

 

A coleta deste sangue afeta diretamente a lógica do ritual yanomami, ao passo que a pesquisa realizada por Chagnon é uma pesquisa em pessoas e não uma pesquisa com pessoas. O pesquisador afeta a corporalidade da tribo coletando e armazenando o sangue dos nativos e, de forma negligente, interfere no ciclo normal dos rituais funerários.

Desconsiderando as implicações éticas relativas ao método através do qual Chagnon conseguiu permissão entre os yanomami para coletar – lhes o sangue, verifica-se uma lacuna ética pós-pesquisa referente ao sangue yanomami estocado sem o consentimento real dos próprios.

 

Referências

 

REIS, J. A Controvertida Sociobiologia. Revista de Ensino de Ciências, São Paulo, nº 07, dezembro, 1982. Disponível em: <http://www.cienciamao.usp.br/dados/rec/_acontrovertidasociobiolo.arquivo.pdf> Acesso em: 19 abr. 2013

 

DINIZ, Débora. Avaliação ética em pesquisa social: o caso do sangue Yanomami. Revista Bioética, Brasília, v. 15, n. 2, p. 284-97, 2007. Disponível em: <http://revistabioetica.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/viewFile/48/51>. Acesso em: 19 abr. 2013.

 

GUIMARÃES, Sílvia. Corpos e Ciclos da Vida Sanumá-Yanomami. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 16, n. 34, p. 261-286, jul./dez. 2010.

 

ISAIA, Artur Cesar. A Relação Entre Natureza e Religião em Burkert e Dawkins. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano III, n. 8, Set. 2010

 

GEERTZ, Clifford. A Interpertação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008



* Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

** Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

*** Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

 

Categoria: Artigos | Adicionado por : Negreiros (2013-05-24)
Visualizações: 1472 | Tags: artigos, yanomami, populações indígenas, índios | Ranking: 5.0/2
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