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“O CASO DE UM ANTROPOLOGO MAU-CARATER”

Amélia Solano*

Aniele Alves**


RESUMO

O trabalho a seguir tem por função abordar as polêmicas em torno do livro ‘Noble Savagens’ do antropólogo norte americano Napoleon Chagnon, uma temática que esta no centro das discussões antropológicas de todo o mundo. O livro aborda o estilo de vida Yanomami, os colocando como um povo violento e inclinado a guerra, entrando em contradição com a opinião de grandes antropólogos a respeito do comportamento desses indígenas.

Palavras-chave: Yanomami. Violento. Napoleon Chagnon.


ABSTRACT

The following work is due to address the controversies surrounding the book "Noble Savagens' North American anthropologist Napoleon Chagnon, a theme that is at the center of anthropological discussions around the world. The book addresses the lifestyle Yanomami, placing them as a violent people and inclined to war, coming into conflict with the opinion of great anthropologists about the behavior of these Indians.

Keywords: Yanomami. Violent. Napoleon Chagnon.


Não é de hoje que Napoleon Chagnon encontra-se envolvido em polêmicas que rodeiam o grupo indígena Yanomami. Desde os anos 60, com o livro ‘O Povo Feroz’ publicado em 1968, retrata o grupo indígena como um povo violento, hostil, disposto a matar os rivais para roubar suas mulheres. O livro foi alvo de inúmeras criticas dos que discordam ferrenhamente da caracterização que Chagnon faz do grupo em questão, principalmente com a publicação de um livro denúncia escrito pelo jornalista Patrick Tierney, "Darkness in Eldorado” e à resenha do mesmo pelo renomado antropólogo Marshall Sahlins  que serviu como uma carta-aberta contendo devastadoras críticas ao antropólogo. Recentemente, o antropólogo tornou a gerar mais uma onda de discussões, dessa vez com o livro ‘Noble Savagens’. Durante todo este tempo, inúmeras manifestações por pesquisadores que já trabalhavam com os Yanomami há muito tempo e de forma mais contínua, descrevem a tribo em questão como um povo geralmente pacífico e não extremamente agressivo, como queria Chagnon.

Em seu livro recente, Chagnon fortalece a imagem romântica do antropólogo em meio à selva retratando suas aventuras e desventuras ao se adaptar à difícil vida na floresta. Em seguida estabelece uma relação afetiva com o público ao atender à curiosidade generalizada sobre a alteridade, discorrendo sobre tradições, rituais e a forma como vivem os Yanomami. Na terceira parte, certamente a principal para o nosso assunto, conta as agruras de seu relacionamento com a comunidade científica.

Seu conflito com a comunidade antropológica americana e internacional se inicia com um posicionamento teórico considerado duvidoso, por aproximar-se mais da sociobiologia do que dos estudos da cultura quando, por exemplo, tenta demonstrar que os machos mais bem dotados geneticamente para a guerra acumulam maior número de mulheres. Além das considerações teóricas, que por si só já seriam o suficiente sustentar longas polêmicas, seus métodos de pesquisa envolviam o estímulo ao conflito e à agressividade entre grupos para posterior verificação de suas teorias. No livro Noble Savagens, recentemente lançado, Chagnon deu seu depoimento de convívio com a tribo no tempo que se infiltrou no meio destes para estuda-los. Disfarçou-se de guerreiro, vestindo-se e pintando-se como tal para ganhar a confiança dos indígenas, oferecendo-lhes panelas de metal, machados e demais utensílios em troca de informações. O comportamento do antropólogo em campo e o orgulho que revelava por forçar seus informantes a práticas culturalmente intoleráveis como a enunciação dos nomes dos antepassados mortos, foi considerado antiético por seus pares.

Na medida em que suas teorias o levavam a um isolamento acadêmico, Chagnon se aliou a geneticistas e às correntes sociobiológicas que financiaram seu retorno às florestas brasileiras e venezuelanas para o desenvolvimento de experimentos envolvendo a coleta de sangue e pesquisas genéticas. Em 1968, foi acusado de disseminar o sarampo propositalmente entre os Yanomami com fins de pesquisa. A Associação Americana de Antropologia que foi convocada a avaliar o seu comportamento ético após estes graves incidentes e embora a acusação de genocídio não tenha sido verificada, seu comportamento individualista, oportunista, arrojado, autoritário e violento foi condenado pela AAA.

Infelizmente, os Yanomami foram e são prejudicados de formas objetivas e concretas pela caracterização que foi feita destes como, por exemplo, a recusa do Reino Unido em financiar projetos de educação ou a justificativa do governo em não reconhecer a terra onde esse povo vive como reserva indígena durante a ditadura militar. Mas os problemas não param por ai, já que os escritos de Chagnon são comumente utilizados por autores que querem expor os indígenas como guerreiros sanguinários.

Um porta-voz da tribo no Brasil se pronunciou contra o antropólogo americano. O líder David Kopenawa declarou: _"Para nós, Yanomami que vivemos na floresta, o antropólogo Napoleon Chagnon não é nosso amigo. Ele não diz coisas boas, ele não transmite boas palavras. Ele fala sobre o Yanomami mas suas palavras são apenas hostis”.  O líder faz, ainda, uma interessantíssima comparação quando nos lembra "as guerras dos brancos” como sendo muito mais violentas do que as apontadas como tradição do seu povo.

Apesar do pronunciamento David Kopenawa, de uma forma geral os Yanomami estão sendo excluídos do assunto pela mídia sensacionalista que prefere pegar apenas as partes mais picantes das intensas discussões a cerca do assunto. Um erro gravíssimo, que impõe uma situação de grande dificuldade ao Yanomamis, que se prejudicam com a crença do público leigo e do governo em tais afirmações, privando-os de adquirir direitos e dando-lhes uma veste de povo sanguinário.

Intensifica-se ainda mais a ‘guerra’ de acusações entre culturalistas e sociobiológos depois do lançamento de Noble Savagens, pois para enriquecer sua genealogia tão necessária aos estudos genéticos, Chagnon faz com que os indígenas quebrem um tabu de sua cultura e revelando o nome de seus ancestrais e os seus próprios, coisa que só era permitida em tempos de guerra. Entre os utensílios distribuídos como forma de ‘presentes’ ou suborno entre as comunidades, passaram a ser estimular a violência  entre os Yanomami, o que permitiria reforçar posteriormente a tese de Chagnon da violência desses indígenas.

Antropólogos de todos os cantos do mundo estão a postos para defender o direito dos Yanomami à terra e à própria cultura, o que faz com que Chagnon tenha ainda mais trabalho em defender sua obra, carreira e reputação sob ‘vigilância’ desde a publicação de seu livro ‘O povo feroz’ e da critica  ‘Trevas no Eldorado’ de Tierney.

São perfeitamente compreensíveis as revoltas geradas a partir das afirmações de Chagnon a respeito do grupo, que ele diz ser violento, hostil, malicioso e tendencioso a guerra, descrição essa em total desacordo com outros antropólogos e estudiosos das diversas áreas que conviveram/convivem com o grupo. Facilitou, através dessa controvertida caracterização, a morte de índios por homens brancos tanto na parte Venezuelana como Brasileira. Desta forma, Chagnon rompe gritantemente com a ética antropológica.

 Apesar de ter sido inocentado da acusação de genocídio (teria facilitado negligentemente ou intencionalmente uma epidemia no meio Yanomami) no comitê de investigação da AAA para apurar as acusações que pesavam contra ele, Chagnon foi reprendido por atitudes antiéticas. Esse episódio demonstra como é de extrema importância que se mantenham os olhos sempre abertos para não deixar ‘antropólogos’ do tipo de Chagnon desencadearem processos ainda mais violentos do que os que já existem, a suprimir a cultura indígena em nome da paz, da ordem e do desenvolvimento, sem sequer buscar conhecer o significado de seus rituais e a cultura dessas sociedades.

É com pesar que somos obrigados a reconhecer que as afirmações feitas por Chagnon influenciam/guiam estudiosos em diversas áreas da ciência, e que o seu livro tem alguma influência, podendo ser usado para alimentar as manipulações de quem não se preocupa em fazer uma distinção e apreciação critica do que há de verdadeiro e o que é sensacionalismo. Apesar dos protestos de corajosos antropólogos e cidadãos conscientes que reconhecem a importância de se buscar compreender a cultura de um povo sem subjugá-la ou tentar suprimi-la, há também os etnocêntricos que enxergam sua própria cultura como mais desenvolvida e aprimorada, se autoatribuindo a função de guiar as demais ao êxito.

REFERENCIA BIBLIOGRAFICA

Survival para os povos indígenas. Noble Savages: Novo livro de Chagnon desencadeia resignação e protestos. 2013.

LEITE, Marcelo. Notas sobre a violência: De antropólogos e outras tribos ferozes. Folha de São Paulo. 2013.

CHAGNON, Napoleon. Noble Savagens. Simon & Schuster, 2013.




* Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

** Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.


Categoria: Artigos | Adicionado por : Negreiros (2013-05-24)
Visualizações: 1054 | Tags: índios, populações indígenas, yanomami, artigos | Ranking: 0.0/0
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