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O AGRONEGÓCIO E A QUESTÃO INDÍGENA NO DISCURSO DA SENADORA RURALISTA KÁTIA ABREU

Laís Müller Napoleão Braz*

Ilana Magalhães Barroso**

Raimundo Nonato Coêlho Júnior***


Resumo: O artigo aqui apresentado tem como objetivo analisar o discurso da senadora Kátia Abreu no que concerne ao seu papel enquanto agente político de grande expressão no cenário político da atualidade, sua militância em defesa do agronegócio e sobre seus polêmicos pronunciamentos frente às comunidades indígenas e ao órgão FUNAI.

           

           Estando na lista dos cem brasileiros mais influentes da atualidade, Kátia Regina de Abreu é empresaria pecuarista, grande latifundiária e já ocupou inúmeros cargos políticos . Atualmente ocupa o cargo de senadora do estado do Tocantins. Militante a favor dos grandes latifundiários e da bancada ruralista no Congresso Nacional, seu posicionamento político tem como pano de fundo principalmente a defesa do agronegócio e a indagação de políticas direcionadas para comunidades indígenas, alem de ser opositora do código florestal. Escreve no diário paulistano conservador Folha de São Paulo seu discurso tem como ponto de partida a defesa do crescimento da agropecuária como requisito principal para o desenvolvimento do Brasil, Esse é posicionamento logicamente vinculado à filosofia institucional da CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, órgão que a senadora preside que representa mais de um milhão de produtores rurais. A sua atividade com o agronegócio vem desde os anos oitenta, chegando mesmo a ser a primeira mulher a liderar a bancada ruralista no Congresso Nacional.

            A senadora que é alvo de criticas constantemente sobretudo no que diz respeito ao seu envolvimento em escândalos (por supostamente possuir milhares de hectares de terras improdutivas) com trabalhadores em condições de exploração e ao seu posicionamento contrario à política de reforma agrária. È criticada também pelos ambientalistas e ecologistas, que lhe atribuíram o titulo de "Miss Desmatamento”. Kátia Abreu gera polêmica ainda por defender a utilização do plantio de sementes transgênicas em laboratórios,  possuindo estudos cujas conseqüências ainda não foram verificados cientificamente à saúde de seus consumidores incentivaram o uso de agrotóxicos e concorda com o monopólio de empresas de biotecnologia que, concorrendo e prejudicando a livre circulação e cultivo de sementes naturais. O auge dessa polêmica se deu no momento em que a senadora declarou que defendia o uso de sementes geneticamente alteradas como alternativa à situação de fome em que parte da população brasileira se encontra.

            A ultra-reacionária bancada ruralista da qual faz parte atua em defesa dos interesses de proprietários rurais tem conquistado concessões para facilidades nos pagamentos ou anulação de dividas, financiamentos com grande favorecimento para estes proprietários e ainda pleiteando em favor da legalização do desmatamento e da anistia aos latifundiários desmatadores. A ideologia da bancada ruralista opositora às medidas de preservação pregadas por defensores da ecologia e do meio ambiente. O discurso entre esses opostos gira em torno da dicotomia entre desenvolvimentismo e ambientalismo.

            Assim, então, os proprietários rurais veem na pessoa da senadora Kátia Abreu a grande voz de representação de seus interesses, exercendo posição de grande poder nesse meio. Constantemente questionada acerca do não cumprimento de leis trabalhistas e de leis que regulamentam o plantio, cultivo, colheita e transporte de grãos, bem como o desmatamento, a senadora respondeu argumentou sua coluna publicado no periódico Folha de São Paulo que:

"O plantio e a colheita, assim como o transporte de frutos ou de grãos, são atividades por si mesmas, que seguem regras próprias e nada têm a ver com uma suposta terceirização de mão de obra indevida. O imperativo diante do qual estamos é o de não nos colocarmos na contramão de uma modernização necessária” (ABREU, Kátia).


            Em outro trecho publicado no mesmo periódico, Kátia Abreu ressalta a já tão polemica dicotomia entre desenvolvimentismo e o discurso ambientalista, oposição que impossibilita a capacidade de promover o desenvolvimento brasileiro através da produção rural pautado em preceitos ambientalistas:

"O termo sustentabilidade é bom de marketing, está na moda, mas não tem referencial concreto em nosso universo mental. Trata-se de palavra criada para a ela atribuirmos um significado” (ABREU, Kátia).


            Em audiência pública no Congresso Nacional brasileiro, a senadora discursou em defesa da bancada ruralista em momento reservado à discussão da reforma do nosso código florestal. Em sua fala, vemos o discurso desenvolvimentista utilizar a fome como argumento para o desmatamento já ocorrido e como justificativa para impedir aumento das áreas de preservação florestal. Seguem trechos onde se torna claro o seu apoio aos produtores rurais e sua justificativa de preservar os interesses desta classe com a falácia da produção de alimentos para a nossa população:

"Eu sou uma aprendiz de meio ambiente e de biodiversidade, mas eu entendo é de mapas e de percentuais. Então o mapa do IBGE demonstra que nós temos 61% de preservação dos nossos biomas. Nós precisamos é gerar riquezas, pois a cada cidadão que nasce, é um impacto ambiental a mais”[...]"O Brasil está abrindo mão de uma floresta riquíssima em nome do fim da fome, dando show em cidadania e em produção de alimentos, logo não se deve cobrar nada ao Brasil e assim o código florestal é inviável[...] nós somos é exemplo e temos moral de cobrar a Europa, já que a ONU quer uma produção mundial maior de alimentos”[...] O Brasil se tornou autossustentável e pra este desenvolvimento necessitou abrir a zona da mata atlântica, isto é necessário[...] Encerrando minha fala, deixo uma reflexão: o Brasil tem o direito, com 16 milhões de pessoas abaixo da linha da miséria, de falar em reduzir a produção de comida?”(ABREU, Kátia).


            Assim, podemos perceber que Kátia Abreu é a própria personalização de uma doutrina econômica e social conservadora baseada em doutrinas excludentes e escravocratas, agindo sob os interesses da monocultura, do prejuízo ambiental e do latifúndio. Como bem coloca Leandro Fortes em seu artigo, "Kátia Abreu é a representação física e institucional dessa cultura perversa que produz resultados econômicos vibrantes nos campos de soja e miséria humana em tudo o mais” (FORTES, Leandro).
            No tocante ao discurso de Kátia Abreu acerca dos indígenas, a polêmica não se torna menor. Em especial três dos seus artigos publicados na coluna da Folha de São Paulo, possuem estruturas argumentativas cuja finalidade principal é a apresentação de pesquisa realizada pelo DATAFOLHA acerca da realidade em comunidades indígenas e a consequente interpretação absurda dos dados de tal pesquisa que ofenderia até o mais conservador dos antropólogos, alem de questionar a conduta e a filosofia institucional da FUNAI.  Ou seja, em relação à questão fundiária indígena, a situação atual de demarcação de terras dentro do Congresso Brasileiro traduz exatamente os interesses da elite agrária, mascarada em um discurso de desenvolvimento. Ou seja, para a bancada ruralista, as terras a serem protegidas com vistas à utilização da sociedade indígena são, na verdade, um obstáculo para a expansão na produção rural. Em oposição ao discurso de antropólogos reconhecidos e de órgãos de proteção como o FUNAI, Kátia Abreu milita contra preceitos já reconhecidos e estabelecidos por doutrinadores e especialistas que buscam preservar a cultura indígena e sua maneira peculiar de organização social.
            Satirizada como "antropóloga da folha”, a senadora discursa acerca das necessidades da sociedade indígena como quem conhece os significados culturais, sociais e econômicos dos símbolos impressos nesta estrutura social. Para o leigo, sua segurança em opinar sobre o que é melhor e o que é pior para o índio na atualidade é considerada por vezes perigosa. Denominando o papel da FUNAI como praticante de uma "antropologia imóvel”, a senadora ruralista traz uma perspectiva pouco cientifica de que o problema indígena é menos territorial que social. Qualquer pleito em nome da necessidade fundiária do índio seria o mesmo que reduzir seu modo de vida atual às necessidades de seus antepassados. A FUNAI e o CIMI são órgãos retrógrados na visão de Kátia, que possuem uma visão retrograda de que o índio estaria parado no tempo, fato este questionado pela senadora através do argumento da miscigenação entre esta e outras culturas. A FUNAI estaria então estaria tentando manter o controle sobre índios para que estes vivam supostamente em caráter de pobreza, quando na verdade, para a ruralista, estes desejam se inserir econômica e socialmente, desejando o modo de vida da cultura predominante no restante do país. Assim, a problemática real desses grupos étnicos seria social, sendo resolvido através da oferta de igualdade de oportunidades e da inserção do modo de vida restante do país. Nas palavras da senadora:


"Pensando em seu lugar, a Funai tenta manter o controle sobre eles, fingindo não ver que a maioria assiste televisão e tem geladeira e fogão a gás, embora continue morrendo de diarreia porque seus tutores não lhes ensinaram que a água de beber deve ser fervida.Há tempos o isolamento em áreas remotas da floresta amazônica, salvo raríssimas exceções, não corresponde mais a uma necessidade vital dos índios e das suas diversas etnias.Ao contrário, esse status aparentemente romântico serve, na verdade, para justificar o contrato de tutela que ainda os mantém como brasileiros pobres.[...]O problema essencial dos indígenas não é fundiário, mas social. Hoje, possuem terras, porém faltam saúde, emprego, agricultura, pontes e estradas. [...] a Funai, com o apoio de ONGs nacionais e internacionais, não reconhece o "fato indígena", a saber, a ocupação efetiva dos indígenas em determinado território quando da promulgação da Constituição de 1988. Continuam identificando terras indígenas pelo país afora, a partir de um certo conceito de ocupação imemorial, em regiões que, de há muito, não são mais indígenas”. (ABREU, Kátia).


            Em seu discurso acerca da problemática indígena o que se apreende facilmente é sua valorização do agronegócio como único meio de se oferecer a subsistência até mesmo para grupos onde a agricultura seria a base para a autonomia social. Na perspectiva de Kátia, o agronegócio é quem possui o papel de solucionar os conflitos que a FUNAI é incapaz de resolver.  É de fácil captura a fragilidade das análises e interpretações baseadas em dados gerados pela pesquisa DATAFOLHA, instituto que, diga-se de passagem, pertence ao jornal em que Kátia Abreu publica artigos periódicos. Sem a utilização da etnografia, do trabalho de campo e da convivência com os indivíduos os quais a senadora julga compreender seus interesses, seus discursos carecem de cientificidade e de profissionalismo. O que se percebe é a manipulação de dados pesquisados para encaixá-los no discurso dos interesses da elite agropecuária brasileira, fazendo crer que a agressão cultural sofrida pelos indígenas na verdade é um prelúdio desenvolvimentista nos quais todos realizarão seus desejos consumistas. O simples fato de índios possuírem eletrodomésticos foi o bastante para que se concluísse que isto era prova de que índios já estão inseridos na vida urbana, comportamento este negado pela FUNAI, que, nas palavras de Kátia, "busca eternizar os povos indígenas como primitivos e personagens simbólicos da vida simples".

            Em artigo publicado no Diário do Amazonas, José Ribamar Bessa Freire critica a suposta antropologia praticada por Kátia Abreu em seus periódicos e a perspectiva desenvolvida por esta onde o problema do índio é social e não fundiário. Nas palavras dele:

"A autora sustenta que não é de terra, mas de fossas sépticas e de privadas que o índio precisa. Demarcar terras indígenas, para ela, significa aumentar os conflitos na área, porque "ocorre aí uma expropriação criminosa de terras produtivas, e o fazendeiro, desesperado, tem que abandonar a propriedade com uma mão na frente e outra atrás". Ficamos, então, assim combinados: os índios não precisam de terra, quem precisa são os fazendeiros, os pecuaristas e o agronegócio” (FREIRE, José Ribamar bessa).

            Em relação ao embasamento teórico de Kátia Abreu e a seu método de análise ao se portar enquanto figura competente para emitir pareceres acerca das necessidades de uma cultura, José Ribamar ainda ironiza:


"A antropóloga da Folha aplicou aqui seu método revolucionário - a abreugrafia - que substituiu o tradicional trabalho de campo, tornando caducas as contribuições de Boas e Malinowski. Até então, para estudar as microssociedades não ocidentais, o antropólogo ia conviver lá, com os nativos, tinha de "viver na lama também, comendo a mesma comida, bebendo a mesma bebida, respirando o mesmo ar" da sociedade estudada, numa convivência prolongada e profunda com ela, como em 'Lama', interpretada por Núbia Lafayette ou Maria Bethania. A abreugrafia acabou com essas presepadas.” (FREIRE, José Ribamar bessa).


            À parte ironias e juízos de valores, o que se percebe através da análise do discurso de Kátia Abreu enquanto agente político investido de poder e dotado de forte posicionamento político, é que suas perspectivas e ideologias negam as ideias contrárias aos posicionamentos do agronegócio e da bancada ruralista tão somente por conta da congruência que existe entre estes posicionamentos e os da própria senadora, enquanto pecuarista latifundiária. Ou seja, defender os interesses dos agropecuaristas é defender seus próprios interesses. Assim, percebe-se facilmente a resistência de Kátia para discursos ambientalistas, indigenistas, ecológicos e renovadores. Muito embora grande parte destes discursos da oposição esteja fundamentada em pesquisas etnográficas, em estudos científicos e em teses de autores especialistas reconhecidos ao longo da história, a contraposição a estes argumentos é antes político que acadêmico ou cientifico. Seu discurso é conservador, autoritário e carente de cientificidade e é aí onde reside o risco, pois a senadora Kátia Abreu conta com bastante poder e com a utilização da mídia como meio reprodutor de suas ideias, tendo como ouvinte não só especialistas ou políticos, mas também o senso comum, que desconhece tanto o jogo político quanto os critérios de legitimação de um discurso a ser validado cientificamente.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


 SCHELP, Diogo (2010). Entrevista Kátia Abreu. Revista Veja, editora Abril, edição 2162, ano 43, nº 17, pág. 25.


ABREU, Kátia. Uma antropologia imóvel. Folha de São Paulo, São Paulo, novembro. 2012 .


ABREU, Kátia. A tragédia na Funai. Folha de São Paulo, São Paulo, novembro. 2012 .


ABREU, Kátia. Até abuso tem limite. Folha de São Paulo, São Paulo, outubro. 2012 .


FONTES, L. De Sarney a Kátia Abreu: uma tragédia brasileira. Blog [internet]. Brasilia: Leandro Fontes 2011 setembro - [acesso em 2012 abril 22]. Disponível em: http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2011/09/21/de-sarney-a-katia-abreu-uma-tragedia-brasileira/ 

 

 FONSECA Lígia de França C; CORRÊA José Gabriel Silvera. Investigando os significados nos discursos políticos:  As visões sobre produção agrícola, trabalho, povos indígenas e terras indígenas nos pronunciamentos de uma senadora. Ética Antropológica em Debate: Práticas e Narrativas, Paraíba, v 2, p 224, novembro. 2012.


FREIRE, José Ribamar Bessa. Kátia: a antropóloga, criadora da Abreugrafia. Diário do Amazonas [publicado em 25/11/2012].




* Gaduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

** Gaduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

***Gaduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

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Categoria: Artigos | Adicionado por : Negreiros (2013-05-24)
Visualizações: 886 | Tags: índios, populações indígenas, yanomami, artigos | Ranking: 0.0/0
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