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6:12 AM
Pássaros
Filipe Augusto Santos*


Fico pensando coisas bobas, como o que eu faria se um gênio me deixasse passar um dia do seu lado de novo, e inclusive, sei o que eu faria se esse dia fosse hoje. Faria coisas de criança. Apareceria numa tarde de domingo e passaria deitado com você. Mas na grama, de um parque ou de um mato qualquer, nos arredores da sua casa, e passaria a tarde sentindo esse Sol d'agora, queimando de leve o nosso rosto enquanto procuramos ver alguma lógica no desenho que Deus fez em cada nuvem.

Te faria perguntas bobas. Que bicho você queria ser? Um bocado de gente queria ser pássaros, o que é uma resposta muito vaga, podendo ir de uma galinha a um avestruz. Te perguntaria essa bobagem, ou melhor, acho que perguntaria. Sei que a pergunta passaria pela minha cabeça, mas não sei se lembraria de perguntar, porque fico muito aéreo quando olho para o céu.

Pense bem antes de escolher que pássaro quer ser, minha pequena. Sei que será difícil ter alguma sombra de dúvida quando um canário rasgar o céu acima de nós, voando apressado, com a confiança que um menino sente em outro menino em tardes de domingo como essas enquanto brincam. Sabe qual o perigo de escolher ser um canário? Canários vivem pouco. Vivem bem uns 5 ou 8 anos. Ok, então não, definitivamente um canário, não. Sabe que pássaro vive muito? Papagaio. Esse sim, vive uns 80 anos fácil, fácil. Parece bem melhor, não é? É, ele voa, vive muito e fala. 

Cuidado quando for escolher que pássaro quer ser, menina de olhos lindos. Papagaios tem essas 3 vantagens, mas não podem realizar as 3. O Papagaio é um bicho fascinante. Inteligentíssimo. Dizem que um papagaio bem esperto, tem a inteligência de um menino de 3 ou 4 anos, mas infelizmente para ele conseguir isso, ele tem que viver com o animal mais baixo que tem. É. Gente.

Sabe por que nós criamos cães, gatos e afins, sem pedir nada em troca? É estranho... Eles podem comer, dormir, dar despesas e nós não esperamos absolutamente nada em troca por parte deles, não cobramos nada, não jogamos na cara. E você vai criar o seu cunhado ou um primo dentro de casa a vida inteira sem cobrar nada? Pense bem. Ele vai comer, beber e dar despesas assim como um cachorro, mas você não vai aturá-lo sabe por que? Porque ele fala. É justamente essa a diferença entre gente e os animais. Nós damos casa e comida pra eles porque eles não falam, não reclamam, não nos julgam. São o exemplo perfeito daquilo de "Pode ficar em casa, mas sem reclamar". Nós amamos a ideia de viver com alguém que nos dá carinho e abana o rabo quando chegamos do trabalho e não nos julga, nem reclama. Amamos tanto que aceitamos dar casa e comida prum cão.

E o papagaio onde fica nisso tudo? Bem, ele podia voar, falar e viver 80 anos. Mas nós sabemos muito bem o que fazer quando tivermos um papagaio em casa. Cortamos suas asas. Bem, já que cortar suas cordas vocais daria muito mais trabalho, vão-se as asas mesmo. E aí está a perdição daquele que escolheu ser um papagaio. Papagaios são tristes. São pássaros e por falarem, tiveram suas asas cortadas assim como todos nós as tivemos um dia. Perderam sua liberdade. E agora estão condenados a viver 80 anos assim, e como se não bastasse, falando. Talvez para ironicamente compreenderem em nossa própria língua e testemunharem em bom português a miséria em que vivemos e somos. 

O canário não. Ele não fala. Ele não teve as asas cortadas e não aprendeu a falar e por isso não perde o seu tempo como nós, advogados e promotores, tendo que escolher quais são as palavras mais bonitas pra se falar o que sente, melhor do que isso: ele canta. Em idioma nenhum. Usa aquela linguagem verdadeira, que sai do coração. Sem enfeites, sem falsidade, nem nada. E que todo mundo entende. O canário voa por cima do meu corpo, do seu, e do céu, atrapalhando a gente enquanto tentávamos desvendar o formato das nuvens, e não dá a mínima pra isso, como aquele menino que rouba as frutas do pé do vizinho, sem vontade fome nenhuma, só para rir da raiva dos adultos que o xingam. Moleque teimoso. Voa apressado para lugar nenhum, aparentemente justamente zombando de nós, aqui presos no chão, mostrando o quão feliz ele é por voar. 

Todos nós nascemos como canários. Mas dura pouco. Com o tempo, nos ensinam a falar e nos podam as asas, enquanto o canário vive sua vida feliz e nós lamentamos não apenas pela nossa, mas pela vida dele, que dura tão pouco. E que exatamente por isso, por ser tão livre, dure tão pouco e pague com a morte, o preço tão caro, de ser tão feliz.


*Graduando em Direito pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI
Categoria: Crônicas | Visualizações: 315 | Adicionado por : Negreiros | Tags: filipe augusto, crônica, caderno polifonias. | Ranking: 5.0/2
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